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ANGOLA CABLES PLANEJA REDE GLOBAL TIER 1

A Angola Cables expandiu para o Brasil em 2011, como resultado de um acordo bilateral entre Brasil e Angola firmado ainda na década de 1990 para estreitar laços comerciais. Naquela época já se falava em construir um cabo submarino que ligasse os dois países lusófonos, que passaram a buscar quem empreendesse o acordo. Mais de uma década passou até que, em 2011, a empresa firmasse uma parceria com a Telebras para lançar o dito cabo, conectando Luanda a Fortaleza.

Por pouco a empreitada não dá água. A estatal brasileira deixou o negócio para construir a infraestrutura da Copa do Mundo de 2014, um cabo com a Europa e um satélite nacional.
A Angola Cables, porém, não desistiu. Buscou financiamento junto ao bancos do Japão e de Angola e decidiu arriscar, sozinha, no lançamento do cabo SACS (South Atlantic Cable System). O projeto, de US$ 300 milhões, prevê também a construção de dois data centers nas estações de chegada. Começa a operar em 2018.

O SACS é parte de um plano de alcance global. A Angola Cables quer ser uma companhia de infraestrutura em telecomunicações com rede mundial Tier 1 de cabos submarinos. Investe ao lado de Algar Telecom, Antel e Google no cabo Monet, que liga Uruguai, Brasil e Estados Unidos, e que começa a funcionar em 2017. Em operação, tem um cabo que conecta os países da costa ocidental da África à Europa.
Antonio Nunes, CEO Angola Cables, conta na entrevista a seguir, que para isso pretende comprar capacidade no Atlântico Norte. Antes, porém, tem como foco fazer o SACS “pegar”. Para isso, acredita na demanda dos países asiáticos para preencher a capacidade do cabo, e dos ISPs brasileiros para buscar uma rota internacional alternativa às existentes hojes.

Síntese – O SACS começou a ser negociado em 2011, e teria participação da Telebras, que depois saiu do negócio para explorar um cabo Brasil-Europa. Isso atrasou o projeto?

Antonio Nunes, CEO da Angola Cables –O SACS é a conclusão de um projeto de parceria entre Brasil e Angola. Foi assinado um acordo há alguns anos sobre a viabilidade de se construir um cabo entre os dois países, nos anos 1990 ainda. Nós só somos, no fundo, um instrumento desse acordo. O governo angolano nos apontou como entidade representativa para fazer o processo, e o governo brasileiro apontou a Telebras. O que aconteceu foi que a Copa passou a ser a prioridade da Telebras, que buscou o desenvolvimento da rede interna brasileira. Em conversa com o governo brasileiro, decidimos que seria mais eficiente avançarmos com o processo de forma independente, para conseguir o timing de conclusão do projeto. E foi o que aconteceu. O cabo com a Europa já estava no roadmap da Telebras, que tinha um projeto bem grande, ligando EUA, Europa e África.

A saída da estatal brasileira e a construção de um cabo com a Europa não mudará a demanda pela capacidade do novo cabo?

Nunes – A princípio, não. Naturalmente que um cabo isolado teria demanda maior. Mas é um cabo que pode ser visto como alternativo e suplementar.

Qual será a importância desse cabo para a receita da Angola Cables?

Nunes – Estamos no momento operando um cabo que liga a África à Europa. Mas dentro da nossa estratégia, a diversidade é fundamental. Conjuntamente com outro cabo, o Monet, vai nos permitir conectividade à América do Sul e América do Norte. Esperamos que nossa receita aumente significativamente a partir do momento em que comecem a funcionar. Qual o valor efetivo é complexo dizer porque é uma rota que não existe hoje, e com isso não temos um dado comparativo. É um risco grande, o que pode explicar porque estamos a investir sozinhos.

O cabo custará US$ 300 milhões. Qual ao investimento apenas no Brasil?

Nunes – Mais de 10% será investido no Brasil. Quando olhamos ao que podemos fazer no Brasil, observamos que a demanda de locação de data centers na região do Nordeste ainda é precária. O NE tem uma oportunidade de crescer em demanda de dados de data centers. Essa foi uma das razões para a construção de um data center em Fortaleza, onde que podemos alocar toda a demanda do Nordeste e colocar nos cabos submarinos. Já teríamos um custo para construir a landing station dos cabos, e transformamos este custo num possível benefício com o negócio de data center.

Quem são os clientes que vocês querem atrair para este data center?

Nunes – Todos os provedores de conteúdos digitais que queiram se internacionalizar. O PTT do Nordeste também é um potencial cliente, porque vamos ter toda esta conectividade internacional. Significa dizer que os ISPs da região vão ter um local onde poderão fazer uma troca de tráfego ainda mais eficiente. Os outros são todas as empresas brasileiras que queiram se internacionalizar sem sair do país.

Para as empresas Angolanas, o data center é atrativo?

Nunes – Claro. Vamos ter dois data centers interligados por uma ponte que tem cerca de 63 ms de latência. Estar em Fortaleza ou estar em Luanda vai ser a mesma coisa. Todos os prestadores de serviço brasileiros passam a ter o mercado africano como mais um mercado para eles. Enquanto o mercado africano pode estar a vender também ao Brasil, porque terá uma conectividade muito próxima.

Em Angola vocês oferecem serviços e PTT. Pretendem lançar um serviço de PTT próprio aqui no Brasil?

Nunes – Vamos oferecer ao NIC.br um data center para se conectar.
Em algum momento nos últimos dois anos a Angola Cables pensou em desistir dos cabos que ligam o Brasil em função das crises política e financeiras?

Nunes – Não. Na realidade, tivemos um ganho. Nosso financiamento é em dólar, estamos a atuar no Brasil em reais, tivemos vantagem nisso. As crises não mudaram nossa estratégia. A demanda do Brasil existe. Vai crescer. Nada vai mudar isso, o mercado brasileiro é muito grande e está ainda muito carente.

Como vocês conseguirão convencer os provedores locais de conteúdo a passar pela África, em vez de priorizar cabos que liguem o Brasil a Estados Unidos ou Europa?

Nunes – Aquilo que não existe hoje no Brasil e nas empresas brasileiras é a visibilidade do mercado africana. O cabo vai, de maneira natural, criar nova valência. Com o novo cabo, estamos a trazer novos mercados ao Brasil. Vamos chegar com o mercado africano atrás de nós. Vai haver maior possibilidade de empresas com outras dimensões tentarem outros tipos de negócios.

Já fecharam clientes?

Nunes – Temos contrato firmado com o Instituto de Pesquisa Americano de Tecnologia (Hemlight). Com outros clientes, estamos negociando. Os ISPs são um dos nossos públicos. As grandes operadoras já tem conectividade para Estados Unidos, mas para a África, não. Podem se beneficiar com a diversificação de rotas.

Como caminha o desenvolvimento do Monet, cabo feito em parceria com Algar Telecom, Google e Entel?

Nunes – Estamos a andar bem. Um cabo desse tipo é, naturalmente, sempre um projeto trabalhoso, mas está tudo conforme o planejado. O investimento não mudou, de nossa parte, US$ 110 milhões. Começa a operar no primeiro semestre do ano que vem.

Vocês têm a intenção de criar um anel óptico na América do Sul? Soube que esteve no Chile recentemente…

Nunes – Estamos a conversar com todos os potenciais clientes, a visitá-los em toda a América do Sul para falar dos cabos. Se nós pudermos fornecer capacidade a um anel óptico na região, queremos fornecer. Mas com o Monet, não com o SACS, que liga Brasil a África. Temos intenção de comprar capacidade no Atlântico Norte e Pacífico, fazer uma rede internacional, e ser um Tier 1. A demanda que vai demarcar o processo [o prazo].

Quem vocês enxergam como concorrentes no caminho para ser um Tier 1?

Nunes – Os grandes players do mercado. Telefónica, Telecom Italia, Level 3, todos. Somos entrantes. Eles já existem no mercado. Nós somos os trouble makers.

Telefónica e Telecom Italia separaram recentemente o negócio de infraestrutura do negócio principal. Vocês têm participação de operadoras africanas, mas já nasceram como uma empresa independente…

Nunes – Nós nascemos primeiro do ponto de vista do conceito. Eles conseguiram perceber que isso é mais eficiente do ponto de vista de oportunidade porque se foca mais o negócio.

A grande diferença é a diversidade. Telefónica e Telecom Italia também têm torres para redes móveis. Vocês pensam em investir em infraestrutura além dos cabos?

Nunes – Neste momento, não. Queremos nos manter muito focados. Por isso a intenção é ter estrutura orgânica pequena. São 87 funcionários. No Brasil teremos 30 a 40 funcionários.

Unitel é um dos acionistas da Angola Cables, com 25% do controle. A Oi briga com a Unitel para receber dividendos. Há conflito político ao negociar? A Oi é uma acionista indireta de vocês?

Nunes – Nenhum. Inclusive, já falamos com Oi. Não temos conflito político com ninguém. A Unitel é nossa acionista sim. Agora, a história é mal contada, complexa. Minha opinião pessoal sobre o processo é que a empresa que comprou as ações da Unitel não foi a Oi nem a Portugal Telecom. A Portugal Telecom vendeu as ações a uma empresa cujos acionistas da Unitel não certificaram. E a Oi é apanhada na onda de ter comprado a Portugal Telecom. É o desembrulhar desse processo que está em conflito. E nós não temos nada a ver com isso, não vemos como interferência, e não queremos interferir no processo de maneira alguma. Mesmo a recuperação judicial da Oi não vemos com preocupação alguma. A Oi é mais um player no mercado, e qualquer questão se dá entre os acionistas, não muda em nível de gestão. Se a Oi será acionista ou não nossa depois, não nos afeta.

O SACS terá 40 Tbps. Qual a necessidade de capacidade entre os continentes?

Nunes – Não sabemos porque hoje não existe demanda. Se conseguirmos trafegar parte da demanda de internet asiática por este cabo, o cabo se paga rapidamente. Para nós, o médio oriente e o extremo oriente são mercados alvo para trafegar dados por meio dos cabos para obter conteúdo sul americano. Por exemplo, no caso de ligação da Bolsa de Valores de São Paulo à Bolsa de Valores de Singapura, este é o caminho primário, é a rota mais eficiente, com a latência mais baixa. Para demandas em que a latência é fundamental, esta será a principal rota. Do resto, servirá como rota alternativa. Este cabo é um cabo internacional, não é nem do Brasil, nem de Angola.

No caso do Monet será aplicado o modelo de negócio aliado a data center?

Nunes – Não misturamos o modelo de negócio de data center com o modelo de negócio dos cabos. Para nós, os cabos são o modelo fundamental. E o data center é outro. No Monet, nossa parte vai chegar no data center também, em Fortaleza. Não terá data center no Sudeste. O Sudeste já tem muito data center. Vamos potencializar nosso investimento no Nordeste. Há uma demanda do mercado brasileiro pela ligação entre Norte e Sul. O data center poderá se transformar num backup do Sudeste, e também de Miami. Por isso estamos a desenvolver uma parceria com a prefeitura de Fortaleza, para transformar a cidade num ponto importante para a América Latina. Ali chegam 15 cabos submarinos. Se a coisa fluir, podemos retomar nossa parceria com a Telebras, quem sabe. [risos]

Existem planos de um cabo concorrente, entre Brasil e Camarões. Temem essa concorrência?

Nunes – Estamos a nos preparar para trabalhar em um ambiente concorrencial. Se Camarões acontecer, podemos até pensar em desenvolver parcerias no processo. O cabo que estamos a instalar não será único. Somos a entidade que aceitou correr o risco inicial, mas se o negócio se provar bom, vão surgir concorrentes. É a vida.

É possível fazer um paralelo entre a economia de Angola e Brasil?

Nunes – A economia angolana esteve a crescer dois dígitos, 12%, por ano. Com a crise do petróleo tivemos uma redução, a crescer 4,5% agora. Temos que nos ajustar. Uma diminuição tão brusca dá uma parada. Exige vermos o mercado com nova perspectiva. Sobre o Brasil, nesta fase específica, as coisas estão ainda conturbadas. O Brasil tem uma demanda muito grande em telecomunicações, e o mercado de internet, internet das coisas e sistemas de informação é um must. Não podemos parar a progressão do mercado. Estamos com a perspectiva de que as coisas se estabilizem.

 
Fonte: tele.síntese